II - O que é viver?

      Após ouvir o nome citado pelo Criador, o bradipodídeo perguntou ao confirmar:

—Tellis...? Esse será o meu nome? —E coçou a sua bochecha direita com a longa unha.

        O proto-dracônico confirmou com um aceno com a cabeça, antes de fechar os olhos e acabar cochilando. O gigante terroso se sentou, abraçando as próprias pernas.

        Kler o observou um pouco confuso. Aproximou-se, dando voltas em torno do corpo de Tellis o analisando. Após uns 5 minutos, perguntou a Portner:

—O que era para ser esse ser?

       Portner se sentou, estufando o peito ao dizer:

—Ora, pois: é o primeiro ser vivo que não é feito de plasma ou de Antimatéria. É algo bom, não é?

        E Kler fitou Portner nos olhos antes de dizer:

—Que não repita aquela experiência da silhueta. —Evitaria dizer o nome “Nomn”.

      Depois disso, Kler, Portner e Tellis decidiram tirar um cochilo assim como Hork, sendo o ser terroso o único que permaneceu sentado.

       Não se sabe se passaram minutos ou horas quando um asteroide atingiu as costas do gigante terroso, com o corpo menor se partindo em pedaços pequenos. Tellis acordou, coçando as costas e roncando, sendo o som do ronco o que acordou Kler e Portner.

      Ainda sonolento, o bradipodídeo perguntou:

—Alguém sabe o que atingiu as minhas costas?

       Ainda sonolentos, os outros negaram com a cabeça. Entretanto, não foi difícil saber o que o atingiu, visto que o núcleo do corpo menor rachado estava exposto. Ao observarem as rochas, o lobo teve uma ideia, perguntando para o leão:

—Você já criou estrelas grandes?

        E o leão de pelagem roxa e juba branca negou com a cabeça, dizendo:

—A criação de estrelas me cansa muito, Kler.

        Aproveitando-se da resposta, Kler sugeriu:

—E se criássemos uma estrela viva?

—Como é que é!? Isso lá é possível!? —perguntou Portner, surpreso.

      E Kler precisou lembrar-lhe que Tellis é literalmente terra. Antes de terminar a sua lógica, Kler se aproximou do Criador adormecido e cutucou a sua cauda. Hork falou dormindo:

—Sol...lua...coruja...

           Virando-se para Portner e Tellis, o lobo questionou com um sorriso no rosto:

—Sabem o que é isso?

     Portner e Tellis pensaram por um momento. O leão começou a falar:

—Uma de suas premonições?

—E... —Fez Kler.

“Pera, aquele dragão tem premonições quando dorme?”, pensou o ser terroso, surpreso.

     Portner pensou um pouquinho mais antes de dizer:

—Então uma coruja que domina o Sol e a Lua?

       Kler assentiu, orgulhoso. Este pediu para o leão juntar as partes menores do asteroide que se quebrou anteriormente, formando uma estrutura com uma forma de atual coruja (Bubo virginianus em específico).

      Após isso, o leão entregou o corpo para o lobo, que soprou no bico da pequena estrutura, que começou a ganhar vida.

        Sua cor, que antes era cinza, passou a ser amarelo (no lado direito do corpo) e preto (no lado esquerdo). Em relação aos olhos, o direito é cinza como a lua, e o esquerdo é brilhante como o sol. Ele ulou, girando a cabeça em 360 graus. Após isso, ele questionou:

—Então...huu-huu...qual seria a minha função?

        Com prontidão e confiança, Portner respondeu por Kler:

—Você, meu pequeno companheiro, será capaz que iluminar o universo com o brilho de suas obras, assim como será capaz de definir quando trabalhar e repousar, se divertir e comer. A ti, darei o nome de Kerh, que significa “ciclo”.

         A coruja fez uma reverência, abrindo as asas para o leão. Nesse momento, Hork veio a acordar. Sonolento, ele veio a questionar:

—Mas o que está acontecendo, afinal?

         Ouvindo aquilo, Tellis, o Bradipodídeo ouvinte teve o trabalho de explicar toda a história que ocorreu. Hork compreendeu, assentindo.

—Eu já vi isso em meus sonhos...

         Kerh pôde criar dois grandes corpos celestes com enorme facilidade: o Sol e a Lua, ambos em lados opostos em relação a Tellis. Vendo isso, Hork ordenou:

—Para que isso seja favorável para um futuro melhor, Tellis, tu hás de correr em torno do Sol enquanto gira da esquerda para a direita. Por infortúnio ou sorte, a Lua girará a contrário.

        Dito isso, tal ação começou a se realizar. Tellis, mesmo contra a sua vontade, começou a se mover em uma velocidade lenta em relação aos demais corpos celestes, mas rápido em relação à Lua.

       Passaram-se anos desde essa realização, até que uma coisa ocorreu. Quando Kerh completou 40 milhões de anos, Portner estava formando os relevos nas costas de Tellis, usufruindo da capacidade de ver além dos olhos. Entretando, por perfurar demais uma certa área, o gigante de terra começou a sangrar. O líquido espumoso começava a descer nas costas do bradipodídeo enquanto este gritava de dor.

        As primeiras lágrimas do universo começaram a cair de seus olhos, enquanto o líquido caía e continuava a correr. Em determinado momento, Kerh perguntou a Hork:

—Não seria bom ele parar de andar para resolvermos a situação do líquido? Huu-huu...

       Hork negou com a cabeça.

—Isso não será necessário, pois eu já vi um futuro em que isso dá certo.

—O que seria, então? —voltou a questionar Kerh.

       As lágrimas do gigante terroso formaram-se por conta própria, originando-se uma bela mulher parda com cauda e chifres bovinos naquele vácuo. A primeira coisa que fez foi dar carícias na cabeça de Tellis, acalmando-o com as seguintes palavras:

—Não precisa chorar mais, meu querido...tudo isso será resolvido em alguns instantes.

        As lágrimas dos olhos de Tellis diminuíram o tempo, assim como Hork ordenou que parasse de se mover. O ser terroso acalmou-se com o toque da nova entidade.

—Mas... e o sangramento... —ele começou.

        A figura antropomórfica beijou-o na testa, continuando a falar:

—O ferimento não se curará se você continuar chorando.

       Ainda no canto, a coruja perguntou ao proto-dracônico:

—Quem é aquela?

       Hork, com sua enorme calma, falou:

—Ela é Her, a nova deusa das emoções, luxúria e maternidade.

        E Kler, aproximando-se de Hork e Kerh, também questionou:

—Como foi que ela surgiu assim, de maneira abrupta?

—O fato de uma entidade ser pai ou mãe já vem antes de pensar em ter filhos, tornando-se progenitor de suas próprias ideias.

       Enquanto Her acalmava Tellis, o sangue desse segundo começou a evaporar, tornando-se nuvens cinzas de um magma crepitante. Her olhou para cima, um pouco surpresa. Ela fica literalmente com o rabo entre as pernas com aquilo.

       Os demais deuses observavam isso com atenção.

—Isso estava planejado? —sussurraram Kler, Portner e Kerh para Hork, em uníssono.

      Hork fechou os olhos, vendo outra premonição. Ao abrir os olhos, fala para Portner:

—Filho, salve aquela entidade antropomórfica.

      Com uma velocidade felina, Portner salta e pega Her nas costas, onde a deusa das emoções agradece. Ao voltar para onde estavam Hork, Kler e Kerh, esses dois deuses tiveram de esperar o que virá em seguida.

      Nuvens se movimentam ao redor de Tellis, voando livremente no lugar. Quando duas dessas nuvens liberaram energia por atrito, algo ocorreu. Uma fina camada azul de ar, que posteriormente seria chamada de Atmosfera, formou-se ao redor do ser terroso. Quando a camada atingiu as nuvens, começou a chover magma, que caías nas costas, cabeça e peito daquela grandiosa entidade.

        Mesmo com as nuvens, Kerh conseguiu observar uma silhueta na atmosfera de Tellis. Parecia uma figura antropomórfica com asas de borboleta. O deus do Sol perguntou para Kler:

—Você está vendo aquilo? —Com a sua asa, apontou para a silhueta.

     Kler semicerrou os olhos para ver o que Kerh apontava. Após uns 5 segundos, perguntou:

—Você está falando de uma silhueta andrógena entre as nuvens? Pois é isso que estou vendo.

       As demais divindades, exceto Hork, surpreenderam-se com aquilo. Her perguntou ao Criador, ainda acariciando as jubas de Portner:

—Isso estava em seus planos, meu nonno(“avô” em italiano)?

       Hork fechou os olhos, assentindo.

—Podem chamá-la de Neri, divindade dos céus.

        Em poucos segundos, Her é empurrada abruptamente para fora das costas do leão. Quando foi ver o que a empurrou (há uma boa distância do resto do grupo), viu a estranha entidade que Hork referiu como Neri atrás dela: uma mulher antropomórfica com a mesma altura dela, de cabelos pretos e longos, além de asas de borboleta azuis com manchas de sangue. Neri estava abraçando-a pelas costas.

—Neri...? —Her perguntou à nova entidade, confusa e surpresa.

   Neri ergueu os olhos, que estavam encostados no ombro direito de Her. Estava lacrimejando. E ela perguntou:

—É... assim como me chamam? —perguntou aos soluços.

     Her sorriu levemente ao dizer:

—Bem...nosso nonno acabou de nomear-te assim há pouco tempo.

         Neri abraçou Her com mais força.

Obrigada...por me fazer tão bela no pôr do sol. —A divindade dos céus falou.

         Neri balançou as asas, com o sangue de Tellis saindo dela rapidamente.


Fim do capítulo 2: "O que é viver?"

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