I - Entre o Tempo, Espaço e a Antimatéria

     Quando o tempo não tinha esse nome, essa ideia não existia. Não existia tempo, nem espaço, nem mesmo o conceito de antimatéria. Havia apenas um silêncio enfadonho. Não obstante, desse grandioso vácuo, um Ser começou a se formar. Partículas de plasma se condensavam em um corpo longo e monumental, um dragão que antecede o fogo, a escama e o universo em si.

      Quando se formou totalmente, o ser observou-se com atenção. Seu corpo assemelhava-se ao que chamamos atualmente de “dragão chinês”, mas com a ausência das futuras escamas. Olhou para o nada e para si mesmo, reflexivo. Fechou os olhos ao refletir, respirando a inexistência inerente do lugar. Quando voltou a abrir os olhos, afirmou com as seguintes palavras:

—Denominar-me-ei, nesse instante, Hork.

       Dito isso, suas pálpebras caíram e, ficando em uma posição confortável naquele espaço, voltou a pensar vagamente sobre o suposto futuro daquele espaço escuro.

        Em um de seus vagos pensamentos, deparou-se com dois grandiosos seres: um lobo de pelagem azuladas e olhos amarelados, e um leão de pelagem roxa, com juba e olhos brancos. Quando enfim abriu os olhos, viu dois novos seres naquele vácuo infinito, iguais aqueles que pensara anteriormente. Na realidade, esses seres eram bem menores que o próprio dragão. Ainda reflexivo, Hork olhou para o lobo e para o leão; para o lobo e para o leão. Após repetir tal gesto algumas vezes, o proto-dracônico falou:

—O que estou vendo nesse instante? —E, antes de obter respostas, continuou: — Pois bem, prezados filhos, eis-nos aqui no grandioso vácuo que precederá o que chamaremos de Universo. Será, para o meu grandioso ser, guia-los no processo de criação dos planos que tenho comigo. Chamem-me de “Hork” ou simplesmente “Pai”.

          No fim daquele discurso, Hork batizou os seus dois filhos: o lobo passará a se chamar Kler, e dominará o tempo; o leão se chamará Portner, e dominará o espaço. Após dizer esses nomes, Hork colocou suas patas dianteiras sobre as cabeças de seus descendentes, dando-lhes os devidos dons da existência. Os olhos dos três brilharam no processo. Quando o proto-dracônico tirou as patas, uma luz se expandiu pelo vácuo, o novo Universo. Kler e Portner fizeram reverências a Hork após tal feito, dizendo em uníssono:

—Faremos tudo o que lhe for pedido.

             A comando de Hork, Portner criou os primeiros corpos celestes que passariam a existir no plano escuro do Universo, enquanto o tempo de Kler continuava como uma linha reta. Porém, uma catástrofe veio a acontecer milênios depois do nascimento do universo.

         Onde ainda não existia tempo nem espaço, um quarto ser veio a surgir. Não emitia luz nem som, mas possuía uma forma felina, semelhante a um tigre. Dos três primeiros, Portner foi o primeiro a perceber a sua presença. Após vê-lo, o leão questionou o seu pai no ponto original do universo:

—Pai, o senhor já criou um outro ser além de mim e de Kler?

           Confuso com a pergunta repentina, o proto-dracônico respondeu:

—Não, meu caro Portner. Nunca pensei em criar um terceiro ser para agora. Por que a pergunta?

—É que... —Portner começou a responder.

              Nesse instante, Kler cortou o espaço universal com sua incrível velocidade, anunciando, preocupado, a Hork(e, consequentemente, interrompendo Portner):

—Pai, tem um estranho ser vagando por aí transformando as nossas obras na total ausência de matéria! E ele ainda diz que tudo isso é sua culpa!

          Tentando manter o controle da situação, o proto-dracônico acalma ambos os filhos com palavras nobres, pedindo para Kler leva-lo ao local onde vira o estranho ser.

           O lobo guiou o pai rapidamente por 360 quilômetros, onde viu o estranho ser. A viagem durou 20 segundos, e o que viu deixou Hork atônito. Uma silhueta de um felino desintegrava um enorme asteroide com o simples toque da pata dianteira, transformando-o no absoluto nada. Quando terminou o serviço, viu as duas divindades, mas o seu olhar focou em Hork.

—Olá, pai... —Começou a falar, com uma voz bem calma. —Gostando do que estou fazendo?

             Um estranho furor repentino cresceu no peito de Hork. Este falou, com uma grande firmeza:

—Não me chame de “Pai”, Nomn. — Ele havia pensado no nome naquele instante.

         O felino riu sarcasticamente, comentando em seguida:

—O que ocorreu, aliás? Só porque estou fazendo o meu serviço, você está me odiando?

—Isso nunca foi o que planejei desde o início. —Falou Hork, elevando o tom de voz.

           Os seus olhos brilharam. Atrás da silhueta felina de Nomn, abriu-se um portal para uma estranha dimensão invertida, um espaço branco em vez de negro.

—Termine esse serviço, meu caro filho. —Comandou Hork, ao olhar para Kler.

        Kler, que estava atônito com a vista, engoliu seco e assentiu. Aproximando-se do felino, este lhe arranhou na face antes de ser empurrado para a outra dimensão. O portal se fechou em seguida. A ferida no semblante de Kler curou-se rapidamente por conta de suas condições como deus do tempo, mas deixando cicatrizes no olho direito.

         Quando pai e filho voltaram para onde Portner estava, o leão estava ao lado de um corpo bradipodídeo criado por si mesmo nesse intervalo, feito de terra. Ao ser questionado sobre aquilo, Portner respondeu:

—Meu caro pai, poderia dar-lhe vida?

          Hork, reflexivo, fechou os olhos, começando a ter premonições. Não seria ele quem daria vida àquele ser, mas um dos seus filhos. Ao abrir os olhos, falou:

—Kler, venha comigo.

         O lobo, apesar de suas dúvidas, foi com o pai para uma distância em que Portner é incapaz de ouvir suas palavras. Ali, Kler perguntou:

—O que o senhor deseja comigo, meu caro pai?

       E o proto-dracônico tocou as palmas de suas patas dianteiras nos olhos de Kler. Os olhos desse primeiro brilham ao falar:

—A partir desse momento, ficarás tu responsável pela vida e pela morte de todos os seres vivos desse universo. Por sua participação inerente na construção atual, dar-lhe-ei esse grandiosíssimo dom.

        Imagens e premonições passaram na mente de Kler. Quando o Criador tira as patas dianteiras dos olhos do deus do tempo, esse segundo perguntou atônito:

—Sério? Eu como deus da vida e da morte?

        Hork assentiu em silêncio, pedindo para voltarem ao lugar onde Portner está. Ao voltarem, o leão perguntou o motivo do afastamento, com o proto-dracônico falando de assuntos a serem abordados. 

—Agora...e esse ser? —Portner perguntou, apontando o queixo para o corpo terroso.

        Hork olhou para Kler de soslaio, sussurrando:

—Agora.

       Sabendo o que seria aquilo, Kler se aproxima do ser e sopra em seu nariz. O ser terroso começa a ganhar vida, olhando inicialmente para baixo, às suas patas. Olhou para cima, confuso em relação àquelas 3 divindades que estão na sua frente.

—Quem sou eu? —perguntou.

       E Hork respondeu prontamente:

Tu és Tellis, ou “Terra”.


Fim do capítulo 1: "Entre o Tempo, Espaço e a Antimatéria"

       

Comentários

Postagens mais visitadas