O que esquecemos de dizer

      Era um arrebol de sexta-feira quando um casal de estudantes(não necessariamente namorados) andava pelas ruas de uma pequena cidade pacata, voltando para casa. Como metade do caminho de ambos era compartilhado, esses dois estudantes sempre iam juntos por uma parte do trajeto.
      Enquanto andavam com passos leves, Marzio, um típico rapaz deprê de 17 anos, cuspiu o chiclete de morango que mascava, acertando uma mosca próxima a um poste de luz. Após isso, jogou a embalagem no lixo. Nishi, sua companheira, observava-o em silêncio, não conseguindo falar nada.
       Após algum silêncio, o rapaz perguntou, com um tom cansado de voz:

–Então, Nishi...o que fará no fim de semana?

      A garota inclinou a cabeça para a direita, confusa em relação à pergunta. Enquanto isso, Marzio se auto-respondeu:

–Se tudo der certo, só acordo na tarde de segunda-feira.

      Na verdade, se pudesse, ele dormiria até o final do ano letivo.
      Erguendo uma sobrancelha, a jovem garota observou, corada, com uma voz bonita e fraca:

–Mas...você sabe que teremos 3 provas nesse dia, certo? Além de ser integral...

      A face de Marzio piorou após isso. Pegou um chiclete do bolso e ofereceu à companheira, que aceitou(mas não mascou de imediato).
     Os dois se entreolharam de soslaio ao continuarem andando. Eles poderiam até estar na mesma sala, mas pouco se conheciam. Após alguns segundos, Marzio, com o mau-humor habitual, lembrou Nishi:

–Você ainda não respondeu a minha pergunta.

–Ah é. –a garota falou ao corar.

      Nishi pensou e pensou, e então pôde responder, bagunçando o próprio cabelo escuro e curto:

–Talvez eu vá ao cinema, ver aquele filme de super-heróis.

        Marzio ergueu uma sobrancelha, com uma dúvida sincera.

–Aquele que está ficando famoso entre os nossos colegas?

       Nishi assentiu, com vergonha.

–É...eu sei que não é nada feminino, mas... –ela começou.

–Não precisa se explicar, ok? Tudo bem gostar desses tipos de coisa. –Marzio interrompeu-a. –Mas, se quiser, posso ir com você talvez.

      Enfim, os dois chegaram a uma certa bipartição na rua, onde tomariam rumos diferentes. Os dois trocaram os números de telefone, e partiram em caminhos diferentes.
      Em relação ao chiclete de Nishi...ela só lembrou dele no dia seguinte, mas o gosto de limão continuava o mesmo.

*****

       Sábado. 14:50 da tarde. De frente ao cinema do shopping municipal, Nishi estava divagando em demasia ao esperar por Marzio, uma coisa óbvia quando se olha em seus olhos cinzentos. Estava usando uma boina francesa sob aqueles cabelos pretos, assim como uma roupa discreta.
      Refletia em asneiras ao som do tic-tac do relógio de pulso quando uma voz cansada falou atrás de si:

–Olá, Nishi. Desculpe o atraso.

       A garota se assustou e olhou para trás. Era Marzio, no final, com uma blusa de gola polo rosa e calças pretas. Nervosa, ela ameaçou rir antes do seu colega falar, irritado:

–Ei! Não tem nada para rir de mim, ok!?

      Nishi continuou corada e Marzio, com o semblante mau-humorado, continuou a falar enquanto arrumava a gola:

–Sim, eu sei que blusa rosa não cai muito bem em mim; mas é a única blusa social que tenho.

       Com um leve sorriso, a jovem sussurrou para si:

–Ficou bem.

       E, percebendo os gestos da boca de Nishi, Marzio perguntou:

–Falou alguma coisa, Nishi?

–Nada, nada! –ela respondeu antes de corar e tampar a própria cara com a boina.

       14:55. Os dois estavam na fila para comprar os ingressos para assistirem ao filme. Marzio pegou a própria carteira do bolso e viu se o valor que carregava dava para dois ingressos. Nishi, vendo isso, toca na mão do colega e abaixa-a, pedindo com o rosto vermelho:

–Você não precisa pagar, tá? Eu tenho o necessário.

     E Marzio guardou a carteira no bolso. Quando chegaram à vez deles de comprae o ingresso, o dinheiro de Nishi não deu para comprar para os dois.

"Tá vendo, Nishi? Fez bastante sentido eu trazer meu dinheiro...", pensou Marzio com uma veia saltitando enquanto pagava o resto do valor.

        O filme começou a ser transmitido a partir das 15h 10min. Marzio realmente se questionava o motivo de ter ido ver um filme de ação e comédia em pleno sábado; e Nishi ria nervosamente de qualquer coisa minimamente engraçada do filme.
       De vez em quando, quando o rapaz olhava para a sua companheira risonha, sentia uma coiaa estranha em sua face. Tocou em seu próprio rosto, pensando estar sagrando pela boca. Estava estranhamente quente o rosto, embora não estivesse com febre. Então...ah, esquece.
      Após o filme acabar às 16h 40min, os dois adolescentes se encontraram na porta do estabelecimento maior às 16 e 55, com Nishi posicionando-se na frente de Marzio. Timidamente, a jovem falou:

–Eu...gostei de hoje. Obrigada.

–Não há de que, Nishi. –Marzio falou, com a apatia habitual.

       Desconfortável com aquela resposta, Nishi esticou os braços e, com os próprios dedos indicadores, fez um pequeno sorriso na face do colega. Enfim, os dois se abraçaram e Nishi partiu.
      Marzio ficou parado, olhando para o horizonte.

"Por que eu estou achando que esquecemos de algo?", ele pensou.

     Ele olhou para baixo, para a própria mão direita. A boina de Nishi estava lá. Ao perceber isso, Marzio começou a perseguir a dona para devolvê-la, mas o resultado eu(o narrador) não poderia lhe contar.

Comentários

Postagens mais visitadas