"Ele está vivo!"

Muitos séculos atrás, viviam um velho artesão e seu filho em uma vila bastante simples no sudeste da Europa. Na maior parte dos dias, os dois viviam felizes naquele lugar pouco povoado e de alegria contagiante. Eram populares entre os vizinhos, especialmente o filho, um amado escritor.
     Não obstante, no dia 15 de março de determinado ano, o artesão encontrara o filho morto na cama, com sangue escorrendo pela boca e pele bastante pálida. Desesperado, o velho procurou um certo deus da cura nas montanhas, chamado Mperco.
     Ao achar a montanha certa e subir, deparou-se com um templo antigo e entrou. No local, encontrava-se um trono na parede oposta, diversas pupas e uma pequena mesa e cadeira, onde um jovem senhor(aparentemente) terminava de operar o braço de uma criança. Após terminar, a criança agradeceu e saiu do templo, e o artesão foi conversar com o jovem.

–Então, tu és Mperco, deus da cura? –perguntou ao sentar-se.

     O médico assentiu, ajustando e limpando os óculos no nariz. Seus olhos amarelos ficaram mais visíveis depois disso.

–O que desejas, meu caro senhor? –a divindade perguntou posteriormente.

–É que meu filho apareceu morto lá em minha casa –O artesão falou, com expressiva emoção – Não quero perdê-lo, Mperco. Ele é a única coisa que me resta.

     Mperco, calmamente, levantou-se da cadeira, amarrando os seus cabelos(brancos de pontas rosas) em um coque baixo. Depois disso, calçou suas mãos brancas com luvas.

–Permita-me ver seu filho, senhor. –Mperco falou após esses gestos.

     O artesão guiou a divindade até a pequena vila onde moravam, sinalizando a sua morada. Gentilmente, Mperco pediu para deixá-lo a sós com o cadáver, entrando na casa após a aceitação.
       No interior da casa, a divindade aproximou-se do cadáver na cama e, com um pano, limpou o sangue que saíra de sua boca, descartando-o posteriormente.
        Descalçou a mão direita e ergueu-a no ar, começando a emanar uma luz verde claro, que curaria o escritor em alguns segundos. Ao abaixá-la levemente, o deus viu uma coisa que não percebera anteriormente: o escritor estava com um livro em sua mão direita. A luz de sua mão diminuiu, e ele pegou o livro.
     Seu título era "A salvação em pessoa - parte II". Folheou um pouco e leu algumas frases do livro em voz alta, tentando raciocinar. Ao tirar suas conclusões, saiu da casa gritando:

–Ele está vivo!

    Todos os moradores da vila, que estavam de frente àquela casa, comemoraram com a conquista. O artesão aproximou-se e perguntou:

–Como você conseguiu curá-lo, ó meu caro deus?

     Com um sorriso, Mperco ergueu o livro do escritor.

–Eu não o curei. Apenas vi isso em sua mão.

–Então você não curou.

     Então Mperco falou o que concluiu anteriormente:

–O que ele tinha de viver já foi realizado em vida ao escrever essa duologia. O senhor sabe que é trabalhoso para um homem escrever um livro em sua vida, e seu filho conseguiu escrever não só um, mas dois.
     "Isso prova que ele se mostrou dedicado ao seu propósito, assim como tu és dedicado ao seu trabalho como artesão. Compreendes?"

     O artesão assentiu antes de pegar o livro das mãos do deus. Mperco começou a andar, indo embora.

–Adeus então. –Mperco falou acenando e sumindo no horizonte.

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