1954: de dinossauros a cinema

Inspirado em: "O mundo de Arapa" e "Amor sem palavras, cinema mudo..."(ambos os títulos de Leo Cunha)

      Algumas décadas atrás, um jovem trombonista fora visitar os seus pais, no interior do estado de Minas Gerais. Ia a cavalo, já que não conseguia muito dinheiro ajudando o cinema daquela cidade pacata para conseguir comprar um carro.
    Ao chegar à casa dos pais, prendeu o cavalo na cerca, e bateu na porta. A cozinheira da casa, naturalizada portugalense, atendeu-o, falando com forte sotaque português:

–Nos dias em que a tua pessoa ficara fora, seus pais discutiram à beça, por conta de um réptil que o Sr. Moraes encontrou na horta.

–O que seria esse réptil aliás, minha senhora? –perguntou o trombonista, cruzando os braços.

–O teu pai afirma ser um dinossauro, embora eu não saiba o que é, portanto. –Ela falou.

–Mas ele é um biólogo. Deveria saber o que é, de facto, o estranho ser que achara tempos atrás. –o trombonista falou ao acariciar os pequenos bigodes escuros.

–Isso é problema de vossas pessoas, que são chiquérrimas demais para o meu gosto. –A cozinheira falou ao entrar em casa.

    Nesse momento, o sr. Moraes chegou ao local, com um carro preto reservado, apesar da idade. Ao desligá-lo e sair do veículo, o filho perguntou:

–Então, pai, é verdade que achaste um réptil na horta?

    O senhor colocou as mãos na cintura, com um largo sorriso no rosto.

–Não é qualquer réptil, meu caro filho! É um dinossauro! –Falou.

–Mas estamos em 1954! Dinossauros já morreram há milhões de...

–Mas ainda é filhote. –o pai interrompeu.

    O senhor foi atrás de uma árvore, e trouxe um pequeno réptil de lá. O trombonista observou detalhadamente e comentou:

–Mas...isso é uma iguana.

     O pai olhou para o filho e para o ser que estava em seus braços, como se estivesse descoberto uma nova espécie.

–Uma...iguana? –E entrou em casa, falando: –Zulmira(sua esposa)! Descobri que temos iguanas!

     O trombonista entrou em casa e, após certo tempo estando ali, recebeu uma ligação do cinema onde trabalhava no musical.

*****

    2 horas depois, o trombonista se encontrou na porta do pequeno cinema municipal, como havia marcado com o dono do lugar tempos atrás. Segundo o dono, uma nova pessoa trabalharia com ele naquele turno.
     Esperou, esperou, e só depois de 10 minutos apareceu uma pessoa, uma garota de mais ou menos 15 anos, que parecia procurar alguém.
    Ao olhar para o trombonista, ela se aproximou e apontou ao semblante do homem.

–Tu és Joaquim Ferreira, naturalizado belo-horizontino? –ela perguntou.

    O homem assentiu, e devolveu a pergunta:

–E quem seria a tua pessoa?

    A garota pôs a mão sobre o peito, e falou:

–Eu me chamo Sofia Neves, e passarei a trabalhar nesse cinema.

    Com dúvida, Joaquim ergueu uma sobrancelha.

–Mas tu não és moça demais para trabalhar nesse cinema? –questionou.

    A jovem negou com a cabeça, sorrindo.

–Não é necessária a sua preocupação, senhor. Estarei aqui apenas à tarde, a tocar piano durante os filmes.

    O trombonista fitou-a nos olhos, com esse olhar obtendo uma certa resposta.

–Tu tens um conhecimento prévio da execução? –o trombonista perguntou.

    Sofia negou com a cabeça, falando:

–O dono desse cinema falou-me que tu serás meu tutor.

    Os ombros de Joaquim se relaxaram, e sua face azedou.

–Tudo bem, então...

    Com o tempo, esses dois desenvolveram uma certa relação de colegas de trabalho durante as tardes de segunda à sexta(quando o cinema abria). O estranhamento inicial foi se dissipando gradualmente e, após 7 anos sendo colegas, Joaquim e Sofia se casaram.

*****

      Alguns dias depois do casamento oficial, Sofia ensaiava piano em sua nova casa, compartilhada com Joaquim. Os dedos tocavam levemente nas teclas do tal instrumento, cuja sonoridade sempre foi agradável de se ouvir.
    Já Joaquim, que estava vestindo a blusa do terno para ir ao velório de seu pai, parou no meio do corredor ao ver sua esposa dedilhando o majestoso instrumento na sala de jantar. Aproximou-se da bela mulher e tocou suas costas, avisando gentilmente:

–Poderias tu ajeitar tuas costas de maneira correta, Sofia?

     Sofia o observou de soslaio, sorriu, saltou e beijou-o.
    As últimas notas do piano ainda ecoavam pela sala enquanto Joaquim se preparava para sair.

           Fim

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